Artista plástico, que lança autobiografia, conversou com a coluna GENTE em seu estúdio em Miami (EUA)
Nordestino, brasileiro, latino. Transgressor para uns, repetitivo para outros. Com prestígio estancado em forma de esculturas gigantescas em várias esquinas de Miami, nos Estados Unidos; e pouco valorizado em sua terra-natal, Recife (PE). Aos 63 anos, Romero Britto passa a limpo suas memórias na autobiografia A arte da felicidade (Citadel Editora), lançada esse mês. Sua trajetória de imigrante representa muitas camadas na América, no momento em que a política migratória de Donald Trump tem como alvo os latinos ilegais. Uma das críticas mais frequentes é que Romero transforma sua linguagem visual em fórmula banal. Para seus detratores, as obras variam de motivos, mas não se traduzem em mensagem. Ele, claro, não concorda. Quero que minha arte se torne um instrumento de inspiração e alegria para as pessoas. Ao receber a coluna GENTE em seu amplo estúdio ao sul do balneário da Flórida, rodeado por milhares de objetos e telas que ganham suas vivas cores, vestindo um avental sujo nas mesmas tonalidades, o pernambucano fala sobre a fama malvista pelos entendedores de artes plásticas e como lida com a pressão por pintar celebridades e presidentes de diversas correntes.
LIDANDO COM AS MEMÓRIAS. Não foi difícil, comecei a lembrar de coisas do passado, algumas que às vezes nem é bom pensar muito. Em geral, tento mais ficar no presente. Não sou de pensar tanto no futuro, nem no passado. Vivo o hoje.
RELAÇÃO COM MIAMI. A cidade me apoiou muito, me abraçou. Miami sempre me lembrou Recife, pelo fato de que Recife é uma cidade bem tropical, muita água em tudo quanto é lugar, tem as pontes….
COMO LIDA COM AS CRÍTICAS. Quando era mais jovem, me preocupava muito com o que as pessoas pensavam. Isso me dava muita ansiedade. Não sabia nem o que que era ansiedade. Mas dava. Hoje não me preocupo não, porque no final das contas sei que não sou o primeiro artista a não ser entendido vivo. Amém, graças a Deus que meu sucesso tem sido grande, porque se tivesse mais gente que não gostasse do meu trabalho, não ia ter um estudo como esse que tenho. Tem muito mais gente que gosta do meu trabalho. O chairman da Coca-Cola me convidou para fazer trabalho com a marca, fiz projetos com a Disney e com a Mattel. Agora mesmo estou fazendo um projeto com uma mega empresa de sapatos. A primeira tiragem vai ser de 5 milhões de sapatos. Dá alegria. Vou me preocupar com críticos ou com o que estão falando? Muitas vezes a fundação da crítica é inveja ou ignorância. Há muito isso no mundo das artes.
FAMOSOS EM PINTURAS. Quando o Michael Jackson fez uma festa em Neverland para mim, foi um grande momento. Do Brasil Emerson Fittipaldi foi convidado. Sempre adorei o Michael Jackson. Foi o máximo, porque encontrei antes com ele e depois fiz uma capa para um CD dele. A primeira vez que fiquei em Neverland, dormi no mesmo quarto que Elizabeth Taylor ficava, foram momentos maravilhosos. Me sinto muito honrado e alegre de ter feito obra de arte para ele. Assim como também para o rei da Inglaterra, Charles, personalidade maravilhosa. Ele tem escultura minha, tem pintura, tem várias coisas.
PINTANDO PRESIDENTES. É muito importante ter diálogo. Quando você fica só num lado, é uma coisa. Hoje em dia as pessoas estão se dividindo muito, mas acho importante falar com todo mundo. O que posso fazer? Vou chorar pelo leite derramado? Não. É parte da história. Agora, se me pergunta quem gostaria de ter homenageado, respondo: Elvis Presley. Priscilla (sua filha) me convidou para a primeira festa depois que Elvis morreu.
A FAVOR DA POLÍTICA DE TRUMP. O que as pessoas não entendem, e eu entendi, é que o problema (da perseguição de imigrantes ilegais promovida por Donald Trump) não é com um médico brasileiro que está na Universidade de Miami, um cara de maior respeito que está trabalhando lá. Mas com os imigrantes que vieram para cá e que se tornaram ruins para a população, criminosos, simplesmente isso. Não é contra alguém que fez um curso superior ou é trabalhadora, são pessoas que vêm para os Estados Unidos fazer coisa errada, assim como anda acontecendo também na Europa. Se você for para Europa, sul da França, tem que tomar cuidado, porque pode acordar e não ter nada. As pessoas botam gases na casa para roubar tudinho. São ladrões, pessoas perigosas. Essa é a preocupação dos Estados Unidos. No meio de tanta gente boa, entram as que não são boas. Tornam-se terroristas nos Estados Unidos. (…) Nunca me senti mal aqui porque nasci no Brasil. Faço meus negócios. Olha o secretário de estado dos Estados Unidos. Ele nasceu em Cuba, né? E é secretário de Estado dos Estados Unidos.
ARTE APOLÍTICA. Depende como o público quer ver. Dizer que sou apolítico é uma coisa, mas eu dizer que não quero comentar sobre política é outra. Porque tudo o que está acontecendo a nossa volta é política. No meu caso, quero que minha arte se torne um instrumento de inspiração e alegria para as pessoas, mas não trazer divisão e tristeza ou qualquer coisa negativa.
DIREITA OU ESQUERDA. Não sei, de direita? O que é isso? Vou dizer uma coisa para você: não me considero de direita ou de esquerda. Mas entendo tudo o que está acontecendo aí fora. Não é que esteja aqui no meu estúdio fazendo obra de arte que não entendo o mundo lá fora. Só prefiro não me posicionar. O que vou fazer? Vou trazer mais tristeza.
ARTE X NEGÓCIOS. Mais de 100 pessoas trabalham aqui comigo. Sou artista, sempre gostei de dividir minha arte com muita gente, mas tento ao máximo ficar longe dos negócios do dia a dia. É complicado ser artista, uma pessoa criativa, e precisar pensar na carreira e nos negócios.
MÉTODO CRIATIVO. Depende da minha agenda. Se tiver alguma coisa para fazer de manhã ou algum exercício, começo mais tarde. Mas em geral, gosto de chegar cedo no estúdio. Chego, mudo de roupa, falo com meu supervisor, meus assistentes e começo a trabalhar. Aí coloco música, escuto música o tempo todo. Não sou de almoçar fora, é uma perda de tempo. Prefiro ficar aqui até umas doze horas por dia. Trabalho sob encomenda. Não faço nada por fazer.
COPIADO PELO MUNDO. De ser inspiração, não há problema, eu gosto, é legal, né? Você saber que tua arte está inspirando as pessoas lá fora. É triste, às vezes, quando vejo gente querendo roubar meu talento e fazer cópias. Uma coisa é ser fonte de inspiração para jovens, no mundo inteiro. Tem escolas que ensinam o meu trabalho a alunos. Outra coisa é copiarem descaradamente, não pode.
LEGADO EM CORES. Sempre teve Pernambuco no colorido da minha arte. A alegria do meu trabalho vem de lá. Espero que as pessoas, quando olharem para meus trabalhos, tenham um sorriso, uma alegria, sintam uma coisa legal. Para mim, sucesso é isso, estar feliz por algo. Sucesso é um trabalho. Sucesso é uma combinação de várias coisas. Mas, principalmente, trabalho.
Fonte: veja.abril.com.br