Pablo Souza afirma que número de abstenção caiu na capital baiana, o que seria inviável caso a prefeitura tivesse barrado veículos de forma proposital
Secretário de Mobilidade de Salvador na gestão de Bruno Reis (União Brasil), o economista Pablo Souza aponta uma ação do Sindicato dos Trabalhadores Rodoviários da capital baiana como razão para os atrasos em ônibus do transporte coletivo municipal no dia do segundo turno das eleições presidenciais. Segundo eles, apoiadores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) abordaram os veículos para afixar adesivos de apoio ao petista.
De acordo com o secretário, fotos, vídeos e áudios serão encaminhados à Justiça para a apuração de crimes eleitorais no dia da votação, como propaganda ilegal. Servidor de carreira, Souza teve até prisão decretada pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE) diante dos atrasos registrados no serviço de transporte da cidade, mas ele estava em Paris participando de um evento — o pedido foi revogado na sequência.
A confusão na capital da Bahia, que é o principal reduto petista no país, foi um dos motivos para o ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF), ampliar o horário de votação em todo país em duas horas. De acordo com Souza, a prefeitura não cometeu nenhuma irregularidade e ao menos mil ônibus circularam no último domingo, 25.
Em nota divulgada, o sindicato negou ter responsabilidade pelo atraso. “Não aceitaremos acusações infundadas nem tentativas de deslegitimar nossa atuação. Defendemos a verdade, a transparência e o respeito à representação sindical dos trabalhadores”, diz trecho do comunicado.
Veja a entrevista com o secretário de Mobilidade de Salvador, Pablo Souza:
A colocação de adesivos pró-Lula por sindicatos foi o que provocou o atraso nos ônibus? Adesivos, presença de políticos, eles fizeram uma espécie de pedágio do adesivaço. Não era colar um adesivo, o sindicato parava uma quantidade de ônibus, que precisa sair com celeridade para poder atender à população, para o cara poder declarar apoio, gravar um vídeo, levar material de campanha, filmar um por um. Então, eles fazem uma ação sistemática para poder fazer esse tipo de engajamento. O que a gente fez? Foi tirando os adesivos e foi liberando os ônibus, foi tirando e foi liberando. Tranquilíssimo. Deu algum impactozinho, mas nada relevante. Quando deu 9h, 9h30, eles ativaram a ação em treze garagens simultâneas, e aí o impacto foi outro, porque começou a gotejar ônibus. O que precisa fluir de uma forma muito rápida, dinâmica, vai gotejando. As pessoas tentaram construir uma tese que a prefeitura parou os ônibus por causa dos adesivos para poder prejudicar um candidato. Nenhum ônibus, em nenhum momento, foi barrado por causa do adesivo. Eu soltei uma nota dizendo que não era para barrar mesmo adesivado.
Equipes da secretaria foram em alguma garagem? A gente foi numa das garagens, que é a garagem G5, do Caminho de Areia, com a nossa equipe, para poder interpelar o pessoal do sindicato. É crime eleitoral, não pode fazer isso, estava atrapalhando o atendimento às pessoas. Então, eles ameaçaram fechar a garagem, teve um desentendimento, e, em função desse desentendimento, o impacto operacional foi pior.

Diante de toda a situação, o senhor teve a prisão decretada. Vai pedir investigação contra os integrantes do sindicato? Nós temos fornecido todos os documentos às autoridades, à Justiça Eleitoral e à Polícia Federal, que é a instituição que vai fazer o acompanhamento desse inquérito. O que eu acho mais importante agora, acima de tudo, é que o que nós viemos falando desde domingo ficou comprovado a partir do vazamento ontem de áudio do presidente do Sindicato dos Rodoviários, que promoveu toda essa ação coordenada em torno da campanha de Lula.
A votação não foi prejudicada? Salvador foi a terceira cidade com a maior redução de abstenção no segundo turno. Reduziu de 20% para 15%. Ou seja, 85.000 pessoas votaram a mais. Se houvesse uma ação deliberada para trancar todos os ônibus na garagem, que é isso que o país inteiro está achando, como é que 85.000 pessoas a mais foram votar? A votação começou às 8h. Esse problema mais grave foi às 9h30 na garagem. A mesma frota que nós colocamos no primeiro turno foi a que a gente colocou no segundo turno.
E hoje a frota é de quantos ônibus em Salvador? Nós temos 2.000 veículos, mais ou menos. Tivemos em torno de mil ônibus rodando no dia da eleição.
O senhor estava em Paris para qual agenda? Eu fui convidado pelo presidente da França, Emmanuel Macron, para ir ao Palácio do Eliseu, que é a sede do governo francês. Tive a oportunidade de recepcionar Macron em Salvador em novembro de 2025, quando ele teve um encontro com o presidente Lula. O presidente francês promoveu esse evento, que foi uma coalizão para o desenvolvimento. Salvador está fazendo um teleférico e nós fomos conhecer o teleférico de Paris. Fomos conhecer os ônibus elétricos de Paris. Eu fiquei muito honrado, porque eu fui o único secretário municipal que pôde compor essa comissão. Sou um simples secretário municipal, quadro técnico, e recebo um convite de um presidente da República.
Quando soube de toda a situação envolvendo o transporte da cidade, qual foi a sua decisão? Na segunda-feira eu peguei um avião para o Brasil, com mandado de prisão em aberto, porque tenho a consciência do fato, das verdades, que agora estão vindo à tona. Não me escondi, não deixei de atender a ninguém da imprensa. Não deixei de retornar a Salvador, não busquei nenhum subterfúgio, não busquei asilo político, não busquei nada. O pedido foi revogado ao longo da viagem. Eu acho que o que houve de antidemocrático foi a ação do Sindicato dos Rodoviários, o que é proibido pelo TSE. É crime eleitoral você fazer colagem para propaganda política em equipamento público.
O prefeito de Salvador, Bruno Reis, fez algum pedido para barrar ônibus nas garagens? Não houve nenhum tipo de orientação do prefeito para que houvesse qualquer ato com impacto negativo sobre o transporte público. Antes mesmo de o TSE determinar o transporte gratuito, o prefeito Bruno Reis já tinha feito isso na eleição de 2022, o que comprova o caráter democrático dele. O grupo político que governa Salvador ao longo dos últimos treze anos nunca teve nenhum problema em nenhuma eleição, seja nacional, seja local, relacionado ao transporte público.
O senhor recebeu alguma ameaça? Ameaça não, mas recebi mensagem no Instagram desejando a morte de minha mãe, uma senhora de 82 anos, que luta contra o Alzheimer. Uma das mensagens eu até publiquei na minha rede social. Eu acho também que a política está muito acirrada há muitos anos, muito polarizada. As pessoas, em diversos momentos, têm saído de uma certa razoabilidade. E esse episódio, para mim, ilustra que as eleições em Salvador foram, sim, contaminadas pelo acirramento da política nacional.
Fonte: veja.abril.com.br