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Operação contra roubo de celulares em São Paulo joga luz nos supertalentos dos cães

Os bichos ganham capacidades cada vez mais poderosas e especializadas

Realizada na capital paulista no mês passado, a operação Frank Mobile envolveu mais de 1700 agentes de segurança das Polícias Civil, Militar, Rodoviária Federal e do Ministério Público do Estado de São Paulo para combater um esquema de furto, roubo, receptação e venda ilegal de celulares e peças. Mas, entre tantos humanos fardados, os verdadeiros protagonistas tinham quatro patas: dentro dos prédios investigados, cães farejadores indicaram o caminho para os apartamentos onde estavam os aparelhos amealhados pelo crime. Bem-sucedida, a missão demonstrou o valor inestimável da cinotecnia, ciência que estuda e aperfeiçoa o olfato dos cães uma capacidade que ganhou ares de superpoder com os avanços dos últimos anos.

Cão pastor-belga malinois com pelagem marrom e preta, usando óculos de proteção pretos e arreios, com a língua para fora, ao lado de uma pessoa com calça preta e mão segurando uma guia
HERÓIS -Os bichos com policiais paulistas e o detalhe da máscara: treinamento exaustivo e precisãoZanone Fraissat/Folhapress/.

No caso da identificação dos celulares roubados, o resultado impressionante é fruto da mesma técnica que leva a polícia em todo o mundo, inclusive em estados brasileiros como São Paulo, a detectar com mais eficiência o uso indevido de aparelhos por detentos nas prisões. Os celulares modernos têm vários componentes, como cristal líquido, placa, tela e bateria. A mistura deles gera uma assinatura química que o cão é capaz de encontrar, diz Marcos Rondo, da Divisão Regional de Segurança Interna da Polícia Penal paulista. Com a chancela de formadora do primeiro cão farejador de celular no país, em 2010, a corporação contribuiu com oito cães para a localização dos aparelhos na operação realizada na região central paulistana.

Com o aprimoramento do estudo do comportamento canino, o olfato do chamado melhor amigo do homem tem ganhado cada vez mais utilidades (veja o quadro ao lado). Na França, os cães se tornaram arma de combate a um problema de saúde pública: a infestação de percevejos em hotéis, abrigos e cinemas, que depois viajam nas bagagens de turistas em aviões. É o método mais eficiente para identificar onde está a colônia dos insetos, relata Jorge Pereira, fundador da Unidade K9 Internacional e da Diagnostic Dog, empresas de cães farejadores com atuação no combate a pragas urbanas. No Brasil, o cinotécnico participou do treinamento de cães para identificar infecção viral de covid-19 na pandemia e foi mentor do Projeto Muriquis do Caparaó, que busca localizar a espécie de primata ameaçada de extinção no parque nacional encravado entre Minas Gerais e Espírito Santo.

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Um homem de boné e colete verde fluorescente guia um cão farejador preto e branco, com coleira laranja, entre os assentos de um avião vazio, inspecionando o chão
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A evolução dotou os cães de uma ferramenta olfativa potente: esses animais têm até 300 milhões de receptores no nariz, ante apenas 5 milhões nos seres humanos. Conseguem até mesmo distinguir o que cheiram separadamente em cada narina. O cão tem capacidade muito grande de identificar odores e separá-los, diz Luis Peres, veterinário e coordenador do Projeto K9, grupo sem fins lucrativos de profissionais da cinotecnia. No treinamento, os animais são apresentados ao cheiro que devem identificar como um material que teve contato com a roupa de uma pessoa desaparecida. Fazemos um reforço positivo quando o cão identifica e sinaliza as moléculas que buscamos, diz Peres.

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A recompensa clássica é um afago ou petisco agrados que mais tarde serão retribuídos amplamente com a atuação deles em tarefas nobres. A escolha das raças varia de acordo com a situação: os pastores são os preferidos pela polícia em ações de segurança ou buscas de longa distância. Já os beagles podem se locomover melhor na esteira de malas de aeroportos. Há, ainda, detalhes técnicos como uso de máscaras em ambientes com muitos estímulos, para os bichos não se estressarem e perderem o foco.

Dois cães em treinamento: um labrador preto com colete vermelho Medical Alert Dog sentado em tapete estampado, e um beagle marrom e branco farejando um painel de madeira com aberturas circulares
CRAQUES -Labrador que capta vírus (à esq.) e beagle em ação: versáteisPete Norton/Getty Images; Divulgação/.
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Apesar dos avanços no mundo e no Brasil, profissionais da área apontam que por aqui a atividade ainda carece de maior regulação, coisa essencial para seu desenvolvimento em países como os Estados Unidos. É um trabalho importante, mas que está engatinhando. Precisamos de certificação para ampliar resultados palpáveis e de confiança, diz Pereira. Ainda que possam e devam ganhar mais espaço, os detetives caninos já provaram que não estão para brincadeira a não ser que ela valha um biscoito, claro.

Publicado em VEJA de 23 de outubro de 2026, edição nº 3018

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Fonte: veja.abril.com.br

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