Campanha centrada no repúdio ao adversário alimenta sentimento que não se desfaz no dia seguinte ao voto, alerta cientista político
Ao fim de uma campanha em que o principal ativo e cabo eleitoral dos candidatos que disputaram o segundo turno da eleição presidencial, Lula e Flávio Bolsonaro, foi o repúdio ao oponente, o que aguarda a sociedade brasileira é, segundo especialistas ouvidos por VEJA, um cenário de tensão crônica.
Essa já tem sido, aliás, a característica do processo político no país nos últimos doze anos, com uma sequência de corridas presidenciais muito polarizadas desde 2014. Naquele ano, 3,5 milhões de votos separaram Dilma Rousseff de Aécio Neves no segundo turno, dando novo mandato à petista, que seria apeada do Planalto por um processo de impeachment em 2016.
Em 2018, o pleito foi marcado pela prisão de Lula, pela escolha de Fernando Haddad para substituí-lo na urna e pelo ataque à faca contra Jair Bolsonaro. Já em 2022, Lula apresentou-se como o candidato de uma frente ampla em defesa da democracia e transformou o capitão reformado no primeiro presidente desde a redemocratização a perder a reeleição.
No oitavo dia de seu novo mandato, milhares de apoiadores de Bolsonaro atacaram as sedes dos Três Poderes em Brasília, levando a um julgamento que condenou o ex-mandatário a mais de 27 anos de cadeia por tentativa de golpe de Estado.
Para o cientista político Jorge Mizael, sócio da Metapolítica Consultoria, o risco maior agora é de que o país saia da eleição sem ter resolvido nada do que o dividiu e com um presidente que começa o mandato rejeitado por quase metade dos eleitores votantes.
O primeiro efeito deve aparecer na governabilidade. Uma vitória construída mais pelo medo do adversário do que pela adesão a um projeto gera um mandato com baixo capital político. Quem vencer terá pouca margem para pedir sacrifícios à sociedade e dependerá ainda mais do Congresso para governar, avalia Mizael.
O segundo efeito é social. Uma campanha centrada no repúdio ensina o eleitor a enxergar o outro lado não como adversário, mas como ameaça. Esse sentimento não se desfaz no dia seguinte à apuração, alerta o cientista político. Ele acrescenta que a metade do país cujo candidato saiu derrotado tende a tratar o novo governo como ilegítimo desde o primeiro dia.
Isso alimenta um ciclo de oposição sem diálogo, desconfiança nas instituições e pouca disposição para acordos mínimos, afirma o sócio da Metapolítica. Aparecerão vários pedidos de impeachment ao longo do próximo mandato presidencial, prevê.
Fonte: veja.abril.com.br