Em 1783, os irmãos Montgolfier usaram ar quente para erguer a primeira aeronave da história e levar animais ao espaço aéreo em Versalhes
O antigo sonho humano de viajar pelo ar tornou-se realidade em 1783 graças aos balões de ar quente e de hidrogênio desenvolvidos na França. A jornada começou com os irmãos Joseph e Étienne Montgolfier, filhos de um fabricante de papel de Annonay. Sem formação científica formal, mas conhecedores das teorias químicas sobre as propriedades do ar, os irmãos realizaram a primeira demonstração pública de um balão feito de tecido e papel. Ao aquecerem o interior da estrutura com uma fogueira de palha e lã úmida, provaram que o ar quente era mais leve que o atmosférico, fazendo o aeróstato sem tripulação subir e percorrer cerca de dois quilômetros.
A repercussão do feito motivou o físico Jacques Charles e os irmãos Robert a desenvolverem um modelo concorrente baseado em hidrogênio, gás recém-descoberto que pesava dez vezes menos que o ar. Em 27 de agosto, eles lançaram um balão não tripulado no Campo de Marte, em Paris, que voou por 20 quilômetros até pousar em Gonesse, onde foi destruído a pedradas por camponeses aterrorizados com o suposto “monstro” que caíra do céu.
Os testes com animais e os primeiros voos humanos
Para testar a segurança atmosférica em altitudes elevadas, Étienne Montgolfier realizou um teste decisivo no dia 19 de setembro de 1783, no Palácio de Versalhes, perante o Rei Luís XVI e Maria Antonieta. O balão azul e dourado elevou-se a 500 metros carregando em uma jaula de vime uma ovelha, um pato e um galo, que pousaram ilesos no bosque de Vaucresson, garantindo à ovelha um tratamento especial no curral pelo resto da vida.
O sucesso abriu caminho para a presença humana nos céus. Em 21 de novembro de 1783, Pilâtre de Rozier e o Marquês d’Arlandes tornaram-se os primeiros aeronautas da história ao sobrevoarem Paris por 25 minutos em um balão de ar quente alimentado por um braseiro.
Apenas dez dias depois, em 1º de dezembro, Jacques Charles e Nicolas-Louis Robert realizaram o primeiro voo em balão de hidrogênio diante de 400 mil pessoas reunidas no Jardim das Tulherias, evento presenciado pelo diplomata Benjamin Franklin. Equipado com sacos de areia para regulagem de altitude, o balão percorreu 43 quilômetros. Após o pouso, Charles subiu sozinho até os 3.000 metros de altura, onde contemplou o pôr do Sol pela segunda vez no mesmo dia.
A febre europeia, as travessias e as tragédias
A “balãomania” espalhou-se rapidamente por toda a Europa, impulsionando expedições audaciosas e inusitadas. Em 15 de setembro de 1784, o diplomata Vincenzo Lunardi realizou o primeiro voo na Inglaterra transportando um gato, uma pomba e um cão. Em uma viagem posterior, no ano seguinte, o voo só foi possível porque a atriz Letitia Anne Sage e o amigo George Biggin subiram sem Lunardi, que precisou ficar em terra após a atriz mentir sobre o próprio peso antes da decolagem.
As travessias internacionais também ganharam destaque e dramaticidade. Em 7 de janeiro de 1785, o francês Jean Pierre Blanchard e o norte-americano John Jeffries atravessaram o canal da Mancha de Dover a Calais. Para evitar a queda no mar, lançaram ao oceano todos os pertences a bordo, desde folhetos publicitários e roupas até a própria urina, conseguindo completar o percurso.
Por outro lado, a busca por recordes trouxe os primeiros acidentes fatais. Em 15 de janeiro de 1785, ao tentarem realizar a travessia inversa do canal da Mancha, Pilâtre de Rozier e Pierre Romain foram atingidos por um golpe de vento que arremessou o balão contra o solo perto de Calais, matando ambos os ocupantes.
A tragédia levou Susan Dyer, noiva grávida de Rozier, ao suicídio pouco tempo depois. No final de 1784, a Europa já contabilizava 181 viagens tripuladas, mas a febre do balonismo decaiu gradualmente diante dos acidentes letais e da limitada utilidade prática da tecnologia na época.
Fonte: www.cnnbrasil.com.br