Thiago Silva, Felipe Melo, Alex, Lugano compraram certificação não reconhecida pela ATFA do ex-jogador Alejandro Mancuso
O ex-jogador Mancuso vendeu diplomas falsificados de treinador da Associação de Técnicos de Futebol Argentino (ATFA) para jogadores e ex-jogadores do futebol brasieliro. A venda ocorria sob a justificativa de que os atletas com suas experiências como jogador não precisariam passar anos estudando o que haviam aprendido dentro de campo. Entre os compradores estavam Thiago Silva, Luiz Gustavo, Diego Lugano, Paolo Guerrero, Roberto Carlos, Felipe Melo, Alex de Souza, Petkovic e Paulinho. Eles precisavam pagar 100.000 reais e em no máximo dez dias recebiam licenças da entidade argentina, que os habilitava a treinar qualquer time no mundo.
As informações são da reportagem de Joanna de Assis do UOL. A jornalista recebeu a denúncia em maio de 2024 de um ex-jogador que preferiu não se identificar na publicação. Segundo ele, Mancuso o abordou do nada com a proposta acertada com Salvador Pasini, dirigente máximo da ATFA, quem assinaria os diplomas. O modelo de proposta foi o mesmo com os outros futebolistas.
Em áudios obtidos pela reportagem, Mancuso oferecia um trâmite urgente como uma via alternativa para conseguir os diplomas, sem realizar toda a formação. O ex-jogador se apresentava como “diretor internacional da ATFA” com respaldo do presidente e do jurídico da entidade, que negou ligação com o ex-jogador. Em entrevista à Joanna de Assis, o próprio Mancuso negou e afirmou: “Eu nunca fui da ATFA, sou apenas um comentarista de rádio”.
Nas propostas, o ex-Flamengo e auxiliar de Maradona na Copa do Mundo de 2010 ressaltava a valorização das licenças da ATFA, reconhecida internacionalmente com credenciais de nível A, B, C e PRO. Na prática, os diplomas dos cursos têm os mesmos acessos e obstáculos dos emitidos pela CBF Academy, no Brasil.
Facilitar a vida dos feras
A principal justificativa de Mancuso na oferta era o encurtamento do processo para obtenção das licenças para quem havia construído uma carreira profissional no futebol, os chamados de fera, craque e monstro pelo argentino.
Fechei com o nosso presidente da federação para que todas essas feras que jogaram futebol tenham um jeito para não fazer esse curso online. Pronto e acabou”, afirma Mancuso em um dos áudios obtidos pela reportagem. São caras que jogaram bola a vida toda, precisa de três anos de curso online?”
E como fica na federação, irmão? Na federação fica que você fez três anos de curso online. 2021, 2022, 2023. É isso aí que você tem que falar para todo mundo, diz o ex-jogador em outro áudio.
A formação oficial da ATFA dura média três anos em que o aluno avança da licença C até a maior, a PRO. Cada curso dura entre seis e 13 meses, com possibilidade de cursar matérias simultaneamente, mas sempre com controle da realização das trilhas de ensino.
Os compradores
Na proposta, os interessados deveriam pagar 20.000 dólares via transferência internacional via conta em Miami, nos Estados Unidos, e receberiam carteirinha, histórico escolar e diploma de treinador PRO pelo correio.
Em resposta à reportagem de Joanna de Assis, jogadores e ex-jogadores revelaram suas versões.
Eu imaginei que as licenças poderiam ser falsas quando eu comecei a cobrar pela aula presencial e o Mancuso nunca marcava. Pensei: ‘Isso aqui tá errado’. A primeira coisa que eu faço é tirar das minhas redes sociais, porque eu estava exibindo que eu era um associado da ATFA, né? E aí peço o meu dinheiro de volta. Diferente de muitos, eu consegui essa façanha aí, disse Felipe Melo, ex-Palmeiras e Fluminense.
Atualmente comentarista no grupo Globo, o ex-seleção brasileira conseguiu reembolso do valor que pagou ao argentino depois de confrontá-lo. A licença de Felipe foi uma das investigadas pela polícia argentina em julho de 2025.
Outra licença investigada foi de Dejan Petkovic. O ex-Flamengo afirmou que tem a licença argentina, mas que está suspensa por não ter conseguido cumprir o presencial.
Como não vou trabalhar [como técnico], nem fui completar, explicou o comentarista.
Paulinho, ex-Corinthians e recém-contratado para a diretoria do Cruzeiro, afirmou que em nenhum momento parecia ser algo ilegal ou falso e apesar de não pensar em ser treinador, estava fazendo vários cursos pela internet.
Alex de Souza, ex-Palmeiras, comprou a licença argentina depois de completar todos os cursos da CBF Academy. Com passagens pela base do São Paulo e atual treinador do Athletic, na série B, afirmou: Ele [Mancuso] dizia que tinha uma forma de arranjar as licenças argentinas. Ele garantiu que só era necessário um processo online e, em pouco tempo, enviaria os documentos. Eu cheguei a preencher uma papelada que ele me enviou, e aí ele me mandou os certificados pelo correio. E foi um erro, que acredito que tenha sido o erro da maioria, e eu assumo. Era para comprar facilidade, mas eu nunca usei.
Jogador do Athletico-PR e com passagem na seleção brasileira, Luiz Gustavo informou através de assessoria que acreditou estar contratando uma homologação de carreira, e não um curso, e desconfiou dos documentos ao receber históricos com avaliações que nunca realizou.
O campeão mundial pelo Brasil, Roberto Carlos também se pronunciou via assessoria que negociou as licenças com Mancuso, as recebeu por correio, mas não as utilizou pois não tinha completado o curso. A sua licença também foi alvo de investigação da polícia argentina.
Lugano, ex-zagueiro e atual diretor do São Paulo, afirmou ter feito a parte online do curso e obteve as licenças no curso rápido oferecido pelo argentino: “Fiz o teórico pela internet, mas faltou a parte presencial. Eu nunca fui”.
Roberto de Assis, ex-Grêmio e irmão de Ronaldinho Gaúcho, disse que foi procurado na época da pandemia, mas não se lembra se fez o depósito para Mancuso. Ele também teve a licença investigada.
Ex-capitão da seleção brasileira e atual jogador do Fluminense, Thiago Silva afirmou que pagou uma quantia referente a realização dos cursos, mas que não foram ministrados como prometido. Segundo a assessoria, ele tentou verificar a licença, sem sucesso, na ATFA, e mesmo assim recebeu os certificados em 2023 e não os utilizou.
Mancuso respondeu
Em entrevista ao UOL, Alejandro Mancuso negou a venda das licenças falsificadas.
Muitos brasileiros me ligam. Por quê? Porque eu sou um cara muito conhecido no Brasil, sabe? E eles me perguntam como é que a gente faz, como é que dá um jeito. Eu passo o contato da federação para que eles liguem direto. Eu não estou na federação, eu não sou parte da federação, afirmou.
Ele afirmou que não existe quando questionado sobre a venda de diplomas por 20.000 reais.
A pedido da reportagem, uma fonte negociou com Mancuso a compra dos diplomas dias antes da entrevista e o argentino afirmou que nunca fez a proposta a jogadores ou recebeu depósitos por fora, e que tudo é resolvido com a federação.
A repórter Joanna de Assis também relatou que um Pablo, se apresentando como diretor jurídico da Atfa entrou em contato, mas não conseguiu provar sua existência e parou de responder a jornalista.
Posição da ATFA
Confira a nota da ATFA à reportagem:
Em nome da Associação de Treinadores de Futebol Argentino (ATFA), respondemos ao seu e-mail e às informações adicionais que nos enviou.
Quanto ao Sr. Alejandro Mancuso, informamos que, embora ele seja um reconhecido ex-jogador da Seleção Argentina e treinador de futebol, a ATFA não reconhece qualquer gestão que o Sr. Mancuso tenha realizado ou alegado fazer em nome da entidade. O referido senhor não integra a Diretoria, não ocupa cargo de autoridade na ATFA, não mantém qualquer vínculo contratual com a instituição e não possui autorização para agir em seu nome ou representá-la. Consequentemente, qualquer oferta, cobrança ou envio de documentação que ele possa ter realizado invocando a ATFA é algo totalmente alheio a esta instituição.
Em relação aos fatos denunciados:
Os fatos descritos em sua mensagem já foram objeto de investigação pela Justiça Federal Criminal e Correcional da República Argentina durante o ano de 2025. No referido processo, investigou-se a suposta emissão irregular de diplomas e licenças de treinador em favor de ex-jogadores de futebol estrangeiros entre eles, vários dos que você menciona em sua nota , bem como a eventual participação de autoridades e funcionários da ATFA.
Após a realização de diligências probatórias incluindo uma busca e apreensão na sede da ATFA, na qual não se encontrou qualquer documentação que comprovasse a emissão de diplomas, históricos escolares ou carteiras profissionais irregulares , o Ministério Público Fiscal solicitou o arquivamento dos autos. O Juízo Federal Criminal e Correcional responsável pelo caso decidiu, em dezembro de 2025, arquivar o processo por inexistência de crime (art. 195, segundo parágrafo, do Código de Processo Penal da Nação).
Portanto, a questão já foi investigada e resolvida pela Justiça Federal argentina, revestindo-se, para ela e para o direito penal argentino, do caráter de coisa julgada.
Quanto ao número de telefone e à pessoa que se identificou como Pablo Goglino:
O Sr. Pablo Goglino é o Diretor Acadêmico da ATFA, e não gerente ou integrante de qualquer departamento jurídico. A ATFA desconhece totalmente as mensagens que você anexou: o número +54 9 (…) não pertence ao Sr. Goglino, e ele não participou de nenhuma troca de mensagens via WhatsApp com você. De fato, conforme consta nas capturas de tela que você mesma apresentou, ao ser consultado diretamente, o Sr. Goglino afirmou não ter mantido contato com você.
Solicitamos, portanto, que não atribua à ATFA nem aos seus integrantes qualquer comunicação proveniente do referido número. A ATFA reserva-se o direito de iniciar as medidas legais cabíveis pelo uso indevido do nome da instituição e de suas autoridades.
Por fim, solicitamos que, caso publique qualquer matéria sobre este assunto, inclua a presente resposta na íntegra e de forma fiel.
Atenciosamente,
Salvador A. A. Pasini
Secretário-Geral
Associação de Técnicos de Futebol Argentino (ATFA)
Fonte: veja.abril.com.br