Consórcio vencedor, que inclui empresa brasileira, ficará com 90% da AySA, responsável pelo abastecimento de Buenos Aires
O governo de Javier Milei adjudicou a venda de 90% da AySA, empresa de água e saneamento que atende Buenos Aires e municípios da região metropolitana, por US$ 340,2 milhões.
O vencedor foi o consórcio formado pelas argentinas Rowing e Transclor, pela brasileira Arcos Saneamento e pela PHX Aqua AR BV. A decisão foi publicada nesta quinta-feira, 22, no Diário Oficial argentino.
A operação é um dos principais passos da agenda de privatizações de Milei e devolve ao setor privado o controle de um serviço que foi reestatizado em 2006. A assinatura do contrato está prevista para até 13 de novembro.
Até lá, a transferência do controle acionário não está concluída. Os 10% restantes da AySA continuarão nas mãos dos trabalhadores, por meio de um programa de participação acionária.
Investimentos e metas para o serviço
Além do valor pago pelas ações, o contrato prevê um plano obrigatório de investimentos para 2027 a 2031.
Segundo o governo argentino, o programa soma 2,89 trilhões de pesos a valores de dezembro de 2025, mais de US$ 2 bilhões, na estimativa oficial, e inclui obras, manutenção e melhorias na operação.
O valor das ações e o compromisso de investimento são itens distintos: os US$ 340,2 milhões vão para a compra do controle, enquanto os aportes deverão ser feitos ao longo da concessão.
A dimensão do desafio aparece nas metas de expansão. A cobertura de água potável deverá chegar a 75,3% da área atendida até o fim de 2031, segundo informações divulgadas pela empresa.
O contrato também prevê mecanismos de reajuste tarifário vinculados aos custos e ao cumprimento de metas de qualidade. Isso torna tarifas, investimentos e fiscalização pontos centrais para avaliar o desempenho do novo operador.
Uma reestatização que agora será revertida
A AySA foi criada em 2006, depois que o governo de Néstor Kirchner encerrou a concessão da Aguas Argentinas, então controlada por um grupo liderado pela francesa Suez. A ruptura ocorreu após anos de conflito sobre tarifas, investimentos e condições da concessão.
Na disputa que se seguiu, um tribunal arbitral internacional reconheceu direitos de indenização aos antigos investidores; o governo argentino registrou posteriormente um valor de US$ 404 milhões, acrescido de juros.
A venda da empresa retoma a direção oposta, mas não elimina a responsabilidade pública sobre um serviço essencial. O Estado continuará responsável pela regulação e pela fiscalização da concessão.
A experiência anterior também deixa uma questão em aberto: se o novo modelo conseguirá ampliar redes e melhorar a prestação sem tornar o acesso à água proibitivo para os usuários.
Privatizações avançam com resultados desiguais
Milei chegou ao poder em 2023 defendendo a redução do papel do Estado na economia. A venda da AySA é um avanço importante para essa agenda, mas o histórico recente combina negócios concluídos com processos mais difíceis.
O governo transferiu a fabricante de equipamentos Impsa ao grupo privado IAF, em 2025, e vendeu por US$ 356 milhões a participação estatal na empresa que controla a transmissora de energia Transener, em 2026.
Na quarta-feira, porém, o Grupo México desistiu de disputar a concessão da Belgrano Cargas, rede ferroviária de transporte de cargas. A companhia havia demonstrado interesse em investir no sistema, mas defendia um modelo que lhe desse controle sobre a infraestrutura e a operação.
O governo propõe um regime de acesso aberto, no qual diferentes operadores possam usar as linhas. A saída do grupo evidencia que a atração de investidores depende também das regras e dos riscos que cada processo oferece.
A adjudicação da AySA dá a Milei uma vitória política e coloca nas mãos de um consórcio privado uma operação de grande escala.
O resultado econômico e social, porém, dependerá da execução dos investimentos, da expansão do serviço e do equilíbrio entre tarifas e qualidade. Até a assinatura do contrato e a transferência efetiva das ações, a privatização ainda não está concluída.
Fonte: veja.abril.com.br