Protagonizado por Caco Ciocler, o longa transforma as inseguranças e contradições de seu protagonista em humor ácido
O filme brasileiro Overman começa de forma apoteótica: o super-herói interpretado por Caco Ciocler derrota seu maior inimigo e salva a cidade de uma ameaça representada pelo Capitalista Imundo, um vilão que depende das altas da Bolsa de Valores para se manter em boa forma. A vitória é narrada pelo personagem em uma sessão de psicoterapia, enquanto revela também problemas mundanos facilmente reconhecíveis no cotidiano brasileiro: ele está desempregado, endividado, não tem casa própria e não sabe o que fazer da vida. Overman mora em uma pensão com Ésquilo (Victor Lamoglia), um jovem igualmente perdido nos rumos da vida, com quem divide um espaço que funciona como quarto, cozinha e sala.
Como dá para notar, o personagem satírico, oriundo dos quadrinhos da cartunista Laerte, em nada se parece com um herói da Marvel. Embora o sonho de Overman nas tirinhas fosse se aproximar ao máximo dos heróis americanos, o filme dirigido por Tomás Portella segue pelo caminho oposto. Sem depender de efeitos especiais fascinantes, de grandes sequências de ação ou de um herói inalcançável, a produção aposta em problemas reais e humanos para construir sua própria versão do gênero — e causar riso.
A sorte parece mudar quando o governador fluminense oferece a Overman e à heroína Pâmela, a Mulher-Cachorro (Karina Ramil), um cargo na Secretaria de Segurança Pública. Do dia para a noite, o herói recupera o prestígio, ganha espaço na mídia, passa a receber rios de dinheiro e vê o ego crescer, sendo funcionário público. A parceria com uma mulher aflora inseguranças do herói, mas também infla seu ego. Overman logo mete os pés pelas mãos entre noitadas e muito álcool, por isso não percebe a aproximação de um inimigo que coloca a segurança da cidade em risco.
Nesse abismo entre o ideal heroico e a realidade brasileira que a sátira encontra a sua graça. Em tempos de polarização política, Overman ainda usa o deboche para rir dos diferentes espectros ideológicos e expor as relações entre poder, política e sociedade. Sem poupar nenhum dos lados, a comédia mostra que crítica e discordância também são saudáveis e podem abrir espaço para o diálogo. Afinal, nem super-heróis estão imunes a erros.
Fonte: veja.abril.com.br