Levantamento da Acorn Advisory aponta 10 transações no período, ante 22 no primeiro semestre de 2025
As operações de fusões e aquisições (M&A) no mercado de saúde brasileiro recuaram 54,5% no primeiro semestre de 2026, para 10 registros, ante 22 transações no mesmo período do ano passado. Os dados são de levantamento da consultoria financeira Acorn Advisory.
As operações classificadas como cross-border (que envolvem empresas estrangeiras) passaram de 11 para seis no período. Apesar da redução, a participação desse tipo de transação no total aumentou de 50% para 60%, já que os negócios domésticos caíram de 11 para quatro.
A retração de 2026 ocorre após um ano de expansão. Em 2025, foram registradas 54 transações no setor, alta de aproximadamente 15% em relação às 47 operações contabilizadas em 2024.
Na nossa avaliação, a queda também reflete o momento de alguns grupos que tiveram um papel importante na consolidação do setor. Depois de um período de muitas aquisições, parte dessas empresas passou a dedicar mais atenção à operação que já construiu. A Hapvida/NotreDame tem buscado simplificar sua estrutura e recuperar rentabilidade. A Dasa vem reorganizando o portfólio e trabalhando na redução do endividamento, enquanto a Oncoclínicas enfrenta uma agenda de reestruturação financeira. A Amil vive uma situação diferente, com mudanças desde a troca de controle e a reorganização dos ativos hospitalares em associação com a Dasa, afirma Gabriel Silva, sócio da Acorn Advisory.
Segundo Silva, essas movimentações demandam capital e atenção da administração, enquanto os juros elevados dificultam o financiamento das aquisições e a formação de preços que atendam às expectativas de compradores e vendedores. O cenário contribui para um mercado mais seletivo e para negociações mais demoradas.
No acumulado de julho de 2023 a junho de 2026, a base da Acorn Advisory reúne 140 registros de M&A no setor de saúde, sendo 60 classificados como cross-border e 80 como domésticos. A classificação inclui tanto aquisições de ativos brasileiros por grupos estrangeiros quanto operações em que compradores brasileiros adquirem ativos de vendedores estrangeiros.
Entre as operações com valores informados, o ticket médio foi de 948,2 milhões de reais nas transações cross-border e de 211,3 milhões de reais nas domésticas. A mediana ficou em 459,6 milhões de reais e 90 milhões de reais, respectivamente. O cálculo considera nove registros cross-border e 24 domésticos. A Acorn ressalta que a diferença entre as médias reflete a composição das amostras e não permite concluir que compradores estrangeiros paguem mais por empresas equivalentes.
Nefrologia concentra aquisições de clínicas
Entre os 60 registros cross-border, clínicas e atenção primária lideraram, com 12 operações, seguidas por distribuição de produtos de saúde, com dez, e pesquisa, fabricação e distribuição farmacêutica, com nove. Juntos, os três segmentos responderam por 51,7% dos registros.
Dentro de clínicas e atenção primária, dez das 12 operações envolveram ativos de nefrologia e diálise. O grupo DaVita aparece como comprador em oito dessas transações, sendo sete por meio da DaVita Brasil e uma pela DV Care Netherlands, responsável pela aquisição das operações da Fresenius Medical Care no Brasil, Chile, Colômbia e Equador.
Entre os cinco maiores negócios por valor informado na base, o maior foi a aquisição da Medley pela EMS, por 3,17 bilhões de reais. Em seguida aparecem a compra da Amil por José Seripieri Filho, fundador da Qualicorp, por 2 bilhões de reais; a aquisição das operações da Fresenius Medical Care na América Latina pela DaVita, via DV Care Netherlands, por 1,48 bilhão de reais; a compra do Hospital São Domingos e da Neuro Imagens pela Mederi Participações, por 1,20 bilhão de reais; e a aquisição do Grupo FQM pela Siltotal Holding, do grupo Roemmers, por 879,1 milhões de reais.
A consultoria observa que o valor atribuído à aquisição da Fresenius corresponde ao conjunto de operações em quatro países, e não apenas aos ativos brasileiros. Os valores são os registrados pela TTR Data e podem seguir critérios de mensuração diferentes entre as transações.
DaVita, Henry Schein, Fagron e Constellation Software aparecem de forma recorrente na base. Segundo a Acorn, são grupos já atuantes no setor que utilizam aquisições para ampliar negócios existentes. A consultoria também identifica casos em que empresas instaladas no Brasil funcionam como veículos para novas compras, fazendo com que uma compradora formalmente brasileira possa representar, na prática, capital estrangeiro.
Para 2027, a trajetória dos juros é apontada como um dos fatores relevantes para o mercado. Uma eventual redução da Selic poderia facilitar as negociações ao diminuir o custo do financiamento, mas também beneficiaria compradores brasileiros e, isoladamente, não garantiria maior participação estrangeira.
A expectativa da Acorn é que as aquisições continuem integrando as estratégias de crescimento das empresas de saúde em 2027. O envelhecimento da população e a necessidade de ampliar o atendimento dão uma perspectiva de demanda de longo prazo. O ritmo das transações, porém, dependerá de fatores como preços, condições de financiamento, qualidade dos ativos e capacidade de integração dos negócios.
Fonte: veja.abril.com.br