Pesquisa identifica espécie invasora em novo trecho do Rio São Francisco; molusco pode obstruir tubulações e elevar custos de manutenção
Uma espécie invasora originária da Ásia está avançando pelos rios brasileiros e preocupando pesquisadores por seus possíveis impactos na geração de energia elétrica. O mexilhão-dourado, molusco conhecido pela rápida reprodução e pela capacidade de formar grandes colônias, foi identificado em um novo trecho do Rio São Francisco, no Norte de Minas Gerais. A descoberta acende um alerta para usinas hidrelétricas, sistemas de abastecimento de água e atividades econômicas que dependem dos recursos hídricos.
O novo registro foi feito por pesquisadores da Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes), que encontraram 113 exemplares do mexilhão-dourado em pontos de coleta nos municípios de São Francisco e São Romão. A ocorrência está localizada a aproximadamente mil quilômetros do registro anterior mais próximo na bacia hidrográfica, realizado entre 2016 e 2017 na região da barragem de Sobradinho, entre Bahia e Pernambuco.
Os resultados foram publicados na revista científica Check List e são fruto de uma pesquisa realizada entre julho de 2024 e abril de 2025. Ao longo de cinco expedições, os cientistas coletaram amostras em 16 estações distribuídas por quatro municípios mineiros. A espécie foi encontrada em todas as estações pesquisadas em São Francisco e em uma estação de São Romão. Em contrapartida, não houve identificação do molusco nos pontos analisados em Ibiaí, Pirapora e no reservatório da Usina Hidrelétrica de Três Marias.
Por que o mexilhão-dourado preocupa as hidrelétricas?
O principal risco econômico associado ao mexilhão-dourado está na capacidade de se fixar em superfícies submersas e formar colônias densas. Nas usinas hidrelétricas, os organismos podem se acumular em tubulações, filtros e sistemas de resfriamento, dificultando a circulação da água e exigindo intervenções de limpeza e manutenção.
Segundo documentos técnicos do Ministério do Meio Ambiente, a proliferação da espécie pode reduzir a passagem de água nas tubulações, favorecer processos de corrosão e comprometer a eficiência de equipamentos utilizados nas instalações. Esses problemas aumentam os gastos operacionais e podem exigir a interrupção temporária de sistemas para manutenção. A presença do molusco já foi registrada em instalações hidrelétricas brasileiras. Na usina de Itaipu, por exemplo, sua ocorrência foi identificada em 2001, com impactos nos sistemas de resfriamento, segundo o Ministério do Meio Ambiente.
O problema também se estende à agricultura e ao abastecimento urbano. As colônias podem obstruir equipamentos de irrigação e estruturas de captação de água, aumentando os custos de operação para produtores rurais e concessionárias de saneamento. Com a presença da espécie invasora, poderemos ter sérios prejuízos econômicos, pois o mexilhão-dourado pode comprometer e obstruir as tubulações de captação de água e de sistemas de irrigação, as tubulações das usinas hidrelétricas e danificar redes de pescadores, afirma Maurício Lopes de Faria, professor da Unimontes e coautor do estudo. Além dos prejuízos econômicos, o molusco compete com espécies nativas por alimento e espaço, podendo alterar o equilíbrio dos ecossistemas aquáticos.
A distância entre os registros identificados no Rio São Francisco chamou a atenção dos pesquisadores. Uma das hipóteses investigadas é que o mexilhão-dourado tenha sido transportado por pequenas embarcações, conseguindo alcançar regiões distantes sem depender exclusivamente da dispersão natural pela água.
O resultado das coletas reforça essa possibilidade. Caso o molusco tivesse avançado continuamente a partir de áreas conectadas à bacia do Rio Paraná, os pesquisadores esperavam encontrá-lo também em pontos intermediários do Rio São Francisco. Entretanto, a espécie não foi identificada nas amostras coletadas em Ibiaí, Pirapora e Três Marias. Nossa hipótese é que a espécie está sendo transportada passivamente em pequenas embarcações, permitindo que ela salte grandes distâncias e supere barreiras como a barragem de Sobradinho, explica Faria.
A possibilidade ainda não foi comprovada definitivamente, mas aponta para a importância do transporte humano na disseminação de espécies invasoras. O mexilhão-dourado chegou à América do Sul por volta da década de 1990 e, desde então, se espalhou por diferentes bacias hidrográficas.
Fonte: veja.abril.com.br