Não falamos de 'Grande Sertão: Veredas' nem de 'O Jogo da Amarelinha'. Desbrave o arduamente poético 'Paradiso', que ganha nova edição no país
É difícil definir ou resumir o romance Paradiso, do cubano José Lezama Lima (1910-1976). Talvez mais difícil ainda seja percorrer até o fim esse “sistema poético do mundo”, para pegar emprestadas as palavras de Eliz Oliveira, mestra em literatura hispano-americana que assina o posfácio da nova e esmerada edição deste clássico, que sai com tradução de Josely Vianna Baptista pela Editora Pinard. Sim, seus neurônios vão suar, mas também sairão deslumbrados após galgar esse monumento da linguagem.
Publicado em 1966, Paradiso poderia ser enquadrado como um romance de formação que acompanha o amadurecimento e as descobertas de José Cemí ao redor de sua família, colegas de escola e amigos de ideias e paixões. Simples assim? O leitor não perde (ou se perde) por esperar.
Me permitam extrair um exemplo do que Lezama Lima é capaz de operar. Eis um episódio de diatribe nos bancos escolares na prosa poética deste homem assustadoramente culto de Havana:
“Fibo era o aluno que empunhava uma caneta de fios coloridos, produto único e monstrengo satânico do barroco carcerário. Terminava numa ponta cruel, ansiosa por afundar nos areais mais macios do corpo. Suas mudanças de lugar eram justificadas pela ausência do livro de leitura. Ele ia até uma carteira, fingindo o alvoroço de um apetite de saber, frisava a necessidade de penetrar no facistol do outro escriba, e então afundava a pena do surucuá infernal através da fenda da carteira de trás, eletrizando o glúteo pela penetração daquela ponta tingida com a energia do anjo cor de uva. No vizinhozinho da frente polarizava-se uma simultaneidade diante do aríete eriçado com as cores de uma barbearia. A surpresa chegava na ponta dilacerante, desconjuntando e rompendo pela dor, com a resposta da dissimulação marmórea para que o professorzinho não interrompesse aquela natural reabsorção da energia pela massa da estreia adolescente. Fibo, surpreso com a própria impunidade de suas descargas de energia na varinha arco-íris, chegava a ficar frenético, mudando de fundamento, afundando a ponta eletroímã, saltando como uma rã que estivesse lendo ordens na lâmina de ouro da bobina de um eletrólito. Assim impedia que o baleote, o monstro de pele prateada, adormecesse ao escorregar nos líquens ou nos babados do bulbo raquidiano. Uma ponta acerada comunicava-lhe as irradiações toda vez que a massa recebia um lançaço daquele São Jorge simiesco, arrastado, em que o dragão se metamorfoseava no côncavo candoroso do glúteo. Quase alcançada a indiferente estabilidade do monstro, amudaram-se os golpes de bandarilha do látego surucuá. Fibo, como um regente de orquestra entregue ao êxtase, saltava sem preludiar nem observar a curva final de sua endemoniada dancinha…”
É uma amostra – nem das mais árduas, e das mais divertidas – da varinha literária do autor. Autor que versa sobre a perda precoce de um pai, a devoção de uma mãe, a regência doméstica de uma avó… Sobre o desabrochar da sexualidade e da curiosidade homossexual… Sobre conceitos e conflitos filosóficos (do platonismo ao taoísmo)… Sobre um mundo barroco com tempero, arquitetura e fumaça cubana.

Mas o grande protagonista do livro é, sem dúvida, a própria linguagem. Um trabalho de ourivesaria. Ou um caldeirão de feitiçaria intelectual que extrai beleza e sentido de um punhado limitado de letras. É o “pote de ouro infinito” a que se refere Eliz no posfácio.
Eliz, que mantém um bem-sucedido clube de leituras latino-americanas, dá um conselho a quem quer encarar e vencer a empreitada de Paradiso. Se não entendeu muito bem um trecho sinuoso, respire fundo e siga em frente. Abrace o fluxo e seja levado por ele. E, se porventura, não for o melhor momento para concluir a jornada, deixe o catatau na estante (ele para em pé sozinho, sem sustento), e volte em outra circunstância.
A experiência é complexa, bonita e marcante. Prova máxima do que a literatura pode fazer por nós.
Com a palavra, Eliz Oliveira.
Começo com um desafio: como definir o que é esse romance? Paradiso é um sistema poético do mundo. O único romance do Lezama Lima publicado em vida. Para resumir, posso dizer que ele conta a história de uma família e de um projeto de pensamento. Acompanhamos José Cemí, um menino asmático da Cuba do início do século XX, passando pela infância, adolescência e juventude. Parece simples, mas a narrativa fica complexa à medida que o enredo avança por desvios e longas digressões sobre amizade, sexo, história, poesia, filosofia, política, música, pintura e comida. São nessas digressões que corremos sérios riscos de nos perdermos. O estilo é uma prosa poética barroca que exige leitura sem pressa e sem expectativa de linearidade. O tal sistema poético do mundo existe justamente na ideia de que a imagem é um modo de conhecer a realidade. E, para isso acontecer, Lezama conseguiu legar a esse livro um desejo de representar um projeto cubano e americano: uma tentativa de dar à ilha e ao continente uma origem e uma identidade próprias. A gente sabe o quanto essa questão de identidade latino-americana foi essencial para os intelectuais do século XX.
Trata-se de um livro difícil e, no posfácio, você sugere que o leitor não deve parar nos trechos mais herméticos; melhor seria seguir o fluxo da obra. Por quê? Tudo parte da minha experiência como leitora. Quando fui ler Paradiso pela primeira vez, estava no meio do mestrado e minha orientadora, que é cubana, me desejou boa sorte. Quando tentei finalizar o primeiro capítulo, entendi o que ela quis dizer. Deixei o livro de lado, voltei um tempo depois, agora lendo em grupo com meu clube de leitura, e só aí minha experiência melhorou. Se eu ficasse tentando decifrar cada detalhe, e o livro é inteiro construído de milhares deles, não teria fluído de jeito nenhum. Comecei a ler trechos em voz alta e percebi que a verdadeira poesia do livro está justamente dentro dessas descrições densas. Depois de um tempinho acontece algo maravilhoso: a gente acostuma e vai entendendo a cadência das frases, das descrições. É instigante demais.

Alguns críticos chamam essa obra de “barroca” – classificação que recebe críticas e ponderações de autores como Eduardo Galeano. Como enxerga essa tentativa de enquadrar Paradiso? Classificações são importantes principalmente para metodologia de ensino, aprendizado e entendimento. É válido tentar colocá-lo em determinadas linhas de estilo, influências e contextos: isso serve como norte importante tanto para pesquisadores quanto para leitores. Mas, como disse, a tentativa é válida, porque não iremos avançar muito além disso. Parece óbvio chegar aqui e dizer que esse livro é inclassificável, mas é isso mesmo. Achar que o barroco é de essência exclusivamente europeia é uma visão um pouco simplista. Me baseio na teoria do barroco americano de Alejo Carpentier que, além de grande romancista e ensaísta, foi pesquisador da América Latina e amigo pessoal de Lezama Lima. Para Carpentier, o barroco não deve ser entendido como um estilo restrito à Europa do século XVII, mas como uma pulsão criadora de um dinamismo constante que ressurge nos momentos de transição das civilizações. Ele demonstra que a América Latina foi barroca desde as suas origens, seja no Popol Vuh, na poesia náhuatl, na escultura asteca ou no sincretismo arquitetônico. A isso se soma o trabalho fundamental da mão de obra indígena, que injetou um fôlego nos motivos decorativos e estruturais, que resultou no que Carpentier chamou de barroco americano. Por isso que, para mim, e me baseio em Carpentier para afirmar, classificar Paradiso como uma obra barroca não é reduzi-la a uma mera imitação do que se faz lá na Europa. Na verdade, está mais como um meio de reconhecer que a prosa lezamiana é barroca por uma necessidade expressiva inerente a um continente de realidade heterogênea, marcado pelo cruzamento de culturas, pela hipérbole, pelo mito e pela frequente superação dos limites da racionalidade linear europeia.
Fica claro que o romance é escrito por um poeta assustadoramente culto e conhecedor da literatura e da filosofia ocidental. Ainda assim, há o tempero cubano e americano. O que destacaria nessa conjunção temática e na linguagem do livro? “Assustadoramente culto e conhecedor da literatura” é a definição perfeita para Lezama Lima. Como comentei antes, o barroco americano está profundamente atado a essas raízes: é genuinamente americano, mas estruturado por um estilo hipermetafórico e agregador. Em Paradiso, lemos o horror ao vazio verbal. Essa escolha do Lezama em estruturar o romance dessa forma não foi um capricho, foi a forma que ele encontrou de desautomatizar nosso ato de leitura. Por isso o desconforto, a dificuldade e o estranhismo com o estilo e a forma que a história é contada. Isso é o barroco americano, essa necessidade de expressar uma cosmovisão ao mesmo tempo local e universal. Não à toa ele levou 15 anos lapidando até conseguir publicar o livro, porque sabia que estava talhando uma nova forma de linguagem, mas não somente, estava criando algo que formulou um universo que só existe porque essa linguagem exuberante, mítica e irredutível também existe.
Você mantém um clube de leitura dedicado à literatura latino-americana. Com tem sido a experiência de servir como porta de entrada, corredor e sala de estar para desbravar livros como Paradiso? Estamos há quase oito anos com o clube, dedicados exclusivamente à literatura latino-americana. Incluir Paradiso no cronograma foi um movimento ousado, confesso. Muitas pessoas não conseguiram terminar na época, mas, com o lançamento dessa nova edição, vários membros têm me pedido para fazermos uma nova leitura coletiva e estou seriamente pensando nisso. Os desafios enfrentados com livros mais longos e complexos serviram para unir ainda mais a comunidade. Hoje somos mais de 300 pessoas de todo o país e, mais do que encontros mensais de leitura, o grupo virou um espaço de amizade, troca de afeto e uma forma viva de priorizar a América Latina nas nossas escolhas literárias, estéticas e culturais. Sou muito feliz com o que o clube alcançou até agora e estou muito empolgada para lançar novos projetos para o ano que vem.
Fonte: veja.abril.com.br