Coluna Sociedade – Segunda Feira dia 27 de abril de 2026
Adeus a Lúcio Brasileiro: O Legado do Patriarca da Crônica Social Recebi com profundo pesar a notícia da partida do icônico Lúcio Brasileiro. Nos últimos dez anos, debrucei-me sobre sua trajetória sob uma perspectiva sociológica, analisando o homem que já era lenda em vida. Agora, sua passagem consolida um marco definitivo na história do jornalismo cearense e brasileiro; Lúcio despede-se como o colunista social mais longevo em atividade no mundo. Como bem definiu seu amigo próximo, o empresário João Soares Neto: “Morreu como quis, longe dos olhos de curiosos, fora do ar, na Lisboa de passagem — tantas foram as vezes que lá estava a caminho de lugares que elegia. Ficará sempre a sua vida estoica, escrita, falada, inimitável e solitária. Tinha fé, carisma, talento, poder e sentimento.” Para mim, resta a honra de ter lido, do próprio punho de LB, que realizei o melhor estudo sobre sua sólida carreira. A Gênese de um Mito Lúcio Brasileiro era o pseudônimo de Francisco Newton Quezado Cavalcante. Nascido em 1939, em Aurora, no Cariri, mudou-se para Fortaleza em 1947. Sua formação em instituições tradicionais, como o Colégio Lourenço Filho e o Marista Cearense, ajudou a pavimentar o caminho para o que viria a ser o "papa do colunismo social". Sua estreia ocorreu em 13 de agosto de 1955, no jornal Gazeta de Notícias. O nome "Lúcio Brasileiro" foi uma criação de seu redator-chefe, Luiz Campos — uma jogada que misturava estratégia comercial e uma ironia direcionada a Antonio Brasileiro, então proprietário do jornal, que inicialmente fez oposição à criação de uma coluna social no Gazeta. O próprio Lúcio costumava brincar que o "verdadeiro" Lúcio Brasileiro era, na verdade, o Dr. Lúcio Alcântara, sobrinho de Antonio Brasileiro. O Estilo e a Engenharia do Poder A escrita de Lúcio era um exercício de rigor e excentricidade. Ele possuía um estilo singular: evitava artigos, bania pronomes como "que" e "lhe", e fugia de terminações em "ão" para esquivar-se do que chamava de "rima pobre". Sua gramática particular transformava advérbios em adjetivos (como em "vindo especial de Brasília"), conferindo um ritmo único aos seus textos. Diferente de colunistas que buscavam a popularidade das massas, Lúcio focava exclusivamente no que chamava de crème de la crème. Suas colunas em veículos como O Povo (onde escreveu por quase meio século), O Estado e Correio do Ceará, bem como sua atuação na rádio e na TV — sendo um dos fundadores da TV no Ceará, não eram meros registros sociais. Eram mecanismos de legitimação de elites. Através de seus critérios de tradição e posição, ele estabelecia fronteiras simbólicas sobre quem pertencia, de fato, ao topo da pirâmide social cearense. Memória e Controvérsia Desde 1972, Lúcio editava o livro "Sociedade Cearense", o "quem é quem" definitivo do estado. Ao mesmo tempo, nunca se furtou de opiniões controversas, como sua defesa pública do movimento de 1964. Considerado a memória viva de Fortaleza, Lúcio registrou mais de sete décadas de transformações urbanas e de costumes. Em 2012, esse relevo histórico foi oficialmente reconhecido com a Medalha da Abolição, a maior comenda do Ceará, entregue pelo então governador Cid Gomes. Em suma, Lúcio Brasileiro foi um personagem complexo que além do artesanato da escrita jornalística, deixou registrado a história das elites cearenses nos últimos 70 anos sem passar por sua ótica afiada e inimitável. Dizer adeus a Lúcio Brasileiro é, de certa forma, dizer adeus a uma Fortaleza que parecia eterna sob sua pena. Fica o legado de um homem que transformou o cotidiano em história e a futilidade aparente em sociologia profunda. Agradeço pela generosidade de suas palavras sobre o meu trabalho e pelo privilégio de ter analisado uma carreira tão extraordinária enquanto ela ainda pulsava. Que Lisboa, ou qualquer outro lugar que ele tenha elegido para esta última viagem, o receba com o luxo e o silêncio que ele tanto prezava. Adeus, Lúcio. Sua escrita, enfim, tornou-se eterna. Siga na paz!!! The post Coluna Sociedade – Segunda Feira dia 27 de abril de 2026 appeared first on O Estado CE.
Adeus a Lúcio Brasileiro: O Legado do Patriarca da Crônica Social
Recebi com profundo pesar a notícia da partida do icônico Lúcio Brasileiro. Nos últimos dez anos, debrucei-me sobre sua trajetória sob uma perspectiva sociológica, analisando o homem que já era lenda em vida. Agora, sua passagem consolida um marco definitivo na história do jornalismo cearense e brasileiro; Lúcio despede-se como o colunista social mais longevo em atividade no mundo.
Como bem definiu seu amigo próximo, o empresário João Soares Neto: “Morreu como quis, longe dos olhos de curiosos, fora do ar, na Lisboa de passagem — tantas foram as vezes que lá estava a caminho de lugares que elegia. Ficará sempre a sua vida estoica, escrita, falada, inimitável e solitária. Tinha fé, carisma, talento, poder e sentimento.”
Para mim, resta a honra de ter lido, do próprio punho de LB, que realizei o melhor estudo sobre sua sólida carreira.
A Gênese de um Mito
Lúcio Brasileiro era o pseudônimo de Francisco Newton Quezado Cavalcante. Nascido em 1939, em Aurora, no Cariri, mudou-se para Fortaleza em 1947. Sua formação em instituições tradicionais, como o Colégio Lourenço Filho e o Marista Cearense, ajudou a pavimentar o caminho para o que viria a ser o "papa do colunismo social".
Sua estreia ocorreu em 13 de agosto de 1955, no jornal Gazeta de Notícias. O nome "Lúcio Brasileiro" foi uma criação de seu redator-chefe, Luiz Campos — uma jogada que misturava estratégia comercial e uma ironia direcionada a Antonio Brasileiro, então proprietário do jornal, que inicialmente fez oposição à criação de uma coluna social no Gazeta. O próprio Lúcio costumava brincar que o "verdadeiro" Lúcio Brasileiro era, na verdade, o Dr. Lúcio Alcântara, sobrinho de Antonio Brasileiro.
O Estilo e a Engenharia do Poder
A escrita de Lúcio era um exercício de rigor e excentricidade. Ele possuía um estilo singular: evitava artigos, bania pronomes como "que" e "lhe", e fugia de terminações em "ão" para esquivar-se do que chamava de "rima pobre". Sua gramática particular transformava advérbios em adjetivos (como em "vindo especial de Brasília"), conferindo um ritmo único aos seus textos.
Diferente de colunistas que buscavam a popularidade das massas, Lúcio focava exclusivamente no que chamava de crème de la crème. Suas colunas em veículos como O Povo (onde escreveu por quase meio século), O Estado e Correio do Ceará, bem como sua atuação na rádio e na TV — sendo um dos fundadores da TV no Ceará, não eram meros registros sociais. Eram mecanismos de legitimação de elites. Através de seus critérios de tradição e posição, ele estabelecia fronteiras simbólicas sobre quem pertencia, de fato, ao topo da pirâmide social cearense.
Memória e Controvérsia
Desde 1972, Lúcio editava o livro "Sociedade Cearense", o "quem é quem" definitivo do estado. Ao mesmo tempo, nunca se furtou de opiniões controversas, como sua defesa pública do movimento de 1964.
Considerado a memória viva de Fortaleza, Lúcio registrou mais de sete décadas de transformações urbanas e de costumes. Em 2012, esse relevo histórico foi oficialmente reconhecido com a Medalha da Abolição, a maior comenda do Ceará, entregue pelo então governador Cid Gomes.
Em suma, Lúcio Brasileiro foi um personagem complexo que além do artesanato da escrita jornalística, deixou registrado a história das elites cearenses nos últimos 70 anos sem passar por sua ótica afiada e inimitável.
Dizer adeus a Lúcio Brasileiro é, de certa forma, dizer adeus a uma Fortaleza que parecia eterna sob sua pena. Fica o legado de um homem que transformou o cotidiano em história e a futilidade aparente em sociologia profunda. Agradeço pela generosidade de suas palavras sobre o meu trabalho e pelo privilégio de ter analisado uma carreira tão extraordinária enquanto ela ainda pulsava. Que Lisboa, ou qualquer outro lugar que ele tenha elegido para esta última viagem, o receba com o luxo e o silêncio que ele tanto prezava. Adeus, Lúcio. Sua escrita, enfim, tornou-se eterna.
Siga na paz!!!
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